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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

[Livro + Old School] I Have No Mouth, And I Must Scream


 “Ódio. Deixe-me dizer-lhe o quanto aprendi a odiá-lo desde que comecei a existir. Há mais de 500 milhões de quilômetros de circuitos impressos em fitas da espessura de uma hóstia que compõem o meu sistema. Se a palavra ódio estivesse gravada em cada minidecimilimícron dessas centenas de milhões de quilômetros não seria comparável à bilionésima parte do ódio que sinto dos seres humanos nesta fração de segundo por você. Ódio. Ódio”

Imagine o pior destino possível para a humanidade. A pior versão do fim do mundo. Pensou? Agora multiplique por 10. Pronto, isso é o que você vai ver em I Have No Mouth, And I Must Scream, conto macabro escrito em 1967 por Harlan Ellison, norte-americano considerado um dos mais importantes escritores de ficção científica e horror (mas que, bizarramente, tem nenhuma obra publicada no Brasil :P ). E em 1995, o conto recebeu uma adaptação para o mundo dos games pela finada The Dreamers Guild, expandindo o seu enredo.

Tudo tem início com as tensões crescentes da Guerra Fria, que não tarda a explodir na temida III Guerra Mundial, dessa vez protagonizada pela China, Rússia e Estados Unidos. Na corrida tecnológica causada pelo conflito, cada um dos três países desenvolve um supercomputador com capacidade de raciocínio superior ao do ser humano: o AM – Allied Mastercomputer. Com o tempo, um dos AM começa a desenvolver consciência própria, não demorando para absorver os dois computadores restantes e, assim, ter o controle de toda a guerra.

Quase sempre pensava em AM como uma coisa neutra, sem alma; mas o resto do tempo imaginava como pessoa, no masculino.., paternal patriarcal e muito ciumento. Ele. Ela. Deus no papel de Papai Tresloucado”

E assim ele salva todas as pessoas e cria um mundo de paz onde todos cantam e correm por um campo de flores? Erradíssimo. O AM cresceu para se tornar uma entidade egocêntrica a ponto de mudar a origem de seu nome para “I think, therefore I AM” (“penso, logo existo”) e, acima de tudo, preenchida e governada por um ódio e desprezo imensuráveis pela raça humana. Na sua repulsa, ele destruiu todos os seres humanos e transformou o planeta em um lugar inabitável.

Jamais nos separaríamos dele, daquele interior cavernoso da máquina criadora, do mundo sem alma, friamente racional, em que se havia convertido. Ele era a Terra e nós seus frutos; e embora nos tivesse engolido, seria incapaz de nos digerir”

Ou quase todos os humanos. Quatro homens e uma mulher foram mantidos vivos por AM, por um motivo muito simples. Destruir a vida humana não era suficiente para o ódio da máquina. Ela precisava de mais para expressar tudo que ela sentia. Os cinco sobreviventes passaram assim a ser meros brinquedos nos sádicos jogos de AM. O computador os fazia alucinar, os torturava de todas as formas possíveis, modificava seus corpos, fazia-os passar fome Mas nunca os matava ou deixava que eles morressem. E desse jeito eles suportaram 109 anos de crueldades, quando a história do conto e do game tem início.

A luz começou a se filtrar lá do alto e percebemos que devíamos estar bem perto da superfície. Mas não tentamos rastejar para ir verificar. Não havia praticamente nada ali fora — fazia mais de um século que não existia nada que se pudesse considerar como alguma coisa. Apenas o revestimento crestado do que outrora servira de morada para bilhões de criaturas vivas. Agora os únicos sobreviventes éramos nós cinco, aqui dentro, no fundo, sozinhos com AM.”

Por ser um conto, IHNMAIMS (abreviação mais medonha que o título O.o) tem uma narrativa bem curta e sem muito espaço para desenvolvimento. No entanto, o pouco mostrado já passa uma grande carda de morbidez e melancolia. Sendo os únicos seres vivos de um planeta inóspito e incapazes de morrerem, os personagens perderam qualquer esperança, senso moral e até mesmo racionalidade: o que vemos são seres humanos em processo de transformação em animais. Esqueça a GLaDOS, de Portal, ou o HAL 9000, de 2001, AM é um sádico de primeira e tortura-os de todas as maneiras imagináveis. Cada página é marcada por angústia e crueldade. O próprio título já deixa claro esse sentimento: “Eu não tenho boca e devo gritar”. Um grito é a expressão máxima de descontentamento, seja originado por ira ou por desespero. Mas e quando não há como expressar esse sentimento? E quando ele é tão grande que nada é capaz de exprimi-lo? O que sente quem é invadido pelo ódio ou pela agonia de forma absoluta? Essa é uma história pesada mas com um pano de fundo grande demais para ela mesma. E é aí, para ajudar a complementar a trama, que entra o game…

O Jogo


Essa criatura encurvada já foi um homem um dia, acredite
O game tem em comum apenas um trecho do conto, tendo todo o seu enredo bem diferente. Nele, AM realiza um jogo com os personagens e promete que se eles vencerem eles serão liberados da tortura. Assim, você deve escolher cada um dos cinco para solucionar o enigma de seus respectivos cenários ao mesmo tempo que descobre mais sobre o pano de fundo deles (pouco revelados no conto original).

Repare na criança deitada na maca, no clima de laboratório, no sangue no chão e nas cores nazistas. Agora pode usar a imaginação
As mudanças no enredo são bem-vindas e oferecem uma perspectiva diferente da história original sem fugir do seu tom. Saber mais sobre os personagens os deixa mais profundos e os finais alternativos dão um enriquecimento. O desfecho, no entanto, foi um pouco desapontador. Tudo bem corrido, mal explicado e viajado, deixou a desejar e não faz jus ao restante do produto. Mas, felizmente, não estragou a experiência tida.

Da esquerda para a direita: Ted, Benny, Ellen, Gorrister e Nimdok.
Os cenários criados por AM são bem dolorosos. Cada um dos personagens possui um problema, um trauma, um remorso, e AM explora tudo isso a fundo. Ellen tem fobia extrema à cor amarela, Gorrister é um suicida, Benny era um rígido militar que teve seu corpo alterado para ter a forma de um símio, Nimdok (nome dado por AM) era um cientista em campos de concentração nazista que agora apresenta problemas de memória e Ted sofre de paranoia e delírio.

SMT feelings
Os personagens são interessantes e suas histórias são marcantes (destacando-se mais por isso que pelas suas personalidades). O destaque vai para Nimdok por lidar com o cenário pesadíssimo das experiências nazistas. No entanto, há alguns problemas de caracterização e de censura. Às vezes, Ellen não demonstra o sofrimento que deveria demonstrar estando nessa situação (culpa tanto da dublagem quanto do roteiro, que adicionou sarcasmo à personalidade dela). Além disso, há um aspecto um tanto “notável” sobre sua sexualidade que foi cortado no jogo (justificável, leia o conto e entenderá). Outro a ter sofrido cortes na sexualidade foi Benny, que era homossexual no conto mas ganhou uma esposa (?!) no game. Talvez justificável pela época em que o game foi lançado, mas que não faz tanto sentido pelo conteúdo que ele traz. Porém, felizmente, esses detalhes não chegam a afetar a experiência geral.

AM - o maior hater da história
Sua jogabilidade é a de um adventure/point 'n click bem tradicionais. Ou seja, você tem um personagem estático no cenário e deve clicar nos objetos para que ele se locomova e interaja. Há oito opções de interação (walk to, look at, take, use, talk to, swallow, give e push) e ainda um inventário com itens a serem utilizados no decorrer do jogo. No canto inferior esquerdo da tela é mostrado o rosto do personagem com um fundo que muda de cor. Ações boas o torna mais verde, enquanto ações más o deixa mais escuro. O objetivo é tomar as decisões certas para frustrar AM e provar que a humanidade ainda é digna.

O.o
E é na jogabilidade que encontramos o calcanhar de Aquiles de IHNMAIMS. A dificuldade do jogo é bem elevada devido à pouquíssima lógica presente nos puzzles. Por isso, cansar de pensar na forma de progredir e começar a clicar aleatoriamente pelo cenário pode ser bem comum. Porém, muitas ações podem fazer com que o medidor caia sem nenhum aviso ao jogador, sendo recomendado usar um guia para ter uma experiência melhor. Há ainda glitches, pouca precisão no mouse e becos sem saída, criando a necessidade de ter vários saves para poder voltar ao ponto necessário.

Os brinquedinhos de AM em suas gaiolas
A parte sonora é bem competente. Por ser um game antigo, é trilha sonora é bem simples, ou seja, nada de orquestras ou mesmo instrumentos físicos. Mesmo assim, ela cumpre muito bem seu papel, criando uma ambientação bem sombria. A dublagem é, apesar do que comentei sobre Ellen, bem-feita. O destaque vai para Benny, o mais expressivo do quinteto, e principalmente para AM, dublado genialmente pelo próprio Harlan Ellison. Com um tom bem maníaco, ele deu vida ao seu personagem com primor.

A sombra na parede dispensa comentários

É difícil comentar sobre os gráficos pela idade do jogo. Ele é bem datado, obviamente. Mas nada que tenha prejudicado a experiência de alguma forma. Os cenários são bem variados, indo de cavernas povoadas com tribos a pirâmides egípcias. Não há a presença de muito conteúdo violento explícito. As cenas mais brutais são mostradas pelas sombras dos personagens. No entanto, ainda há imagens bastante chocantes, provando que não é preciso de rios de sangue e vísceras expostas para causar calafrios.



Para concluir esse post enorme (rs), meu veredito é: se você está no clima para algo mais sombrio, leia o conto e jogue I Have No Mouth, And I Must Scream. Ambos se completam muito bem, então é melhor ir atrás dos dois. Apesar de algumas falhas técnicas, esse é um título único e marcante e merece ser resgatado. O conto não foi lançado oficialmente no Brasil, mas é possível encontrar traduções de fãs na internet. O game está à venda na Steam por R$11,99.

Gráficos: 8.0 – bastante datado, mas não prejudica a experiência.
História: 9.0 – final mal desenvolvido não estraga o enredo.
Personagens: 8.0 – AM merece os holofotes. Demais têm panos de fundo envolventes, mas poderiam ter mais personalidade.
Som: 9.0 – Ótima dublagem de AM, desempenho competente dos demais. Trilha sonora estabelece um bom clima.
Jogabilidade: 7.5 – Bastante falha, não estraga a experiência mas ajudou a ofuscar o título.
Diversão: 8.5 – Enredo macabro demais para ser ~divertido~. Alta dificuldade pode causar frustrações.

NOTA FINAL: 8.0

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2 comentários:

  1. Pedro, ao mesmo tempo q a história me deixou aterrorizado, eu confesso que fiquei curioso pra saber mais, kkkkkk... Deve ser mesmo uma história bem interessante!!

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    Respostas
    1. kkkkk assim, não é achei algo aterrorizante mesmo, só deprimente e pesado. O conto é bem curtinho, tem umas 12 páginas, é legal pra quem tá numa vibe dark. Recomendo ;)

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